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Renovação ilegal da carteira de habilitação custa R$ 200

11/10/2007

Clínicas e centros de formação dão 'jeitinho' para apressar regularização do documento.
Fraudes preocupam presidente do sindicato das auto-escolas e CFCs.

Roney Domingos

Com R$ 200, qualquer motorista consegue renovar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) de forma ilícita em São Paulo. Foi o que constatou  a reportagem do G1 em auto-escolas, clínicas de exame médico e até nas proximidades de um posto do Poupatempo, uma central do governo paulista onde é possível retirar vários tipos de documento.
O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) determina que pessoas habilitadas antes de 1999 façam prova ou curso de 15 horas em um Centro  de Formação de Condutores (CFC) para renovar a licença para dirigir. Com dinheiro na mão, no entanto, é possível burlar essas regras.
As ruas próximas ao Poupatempo da Sé, no Centro de São Paulo, são tomadas por "zangões", como são conhecidos os homens que abordam motoristas e oferecem a eles serviços ilegais para facilitar a emissão do documento.

Um deles ofereceu ao repórter do G1 a venda direta da renovação. A conversa ocorreu em um prédio em frente ao Poupatempo. O motorista tem que fornecer ao intermediário apenas o exame médico previamente realizado, cópias de documentos de identificação e comprovante de residência.

“Eu faço tudo esse serviço aí, meu patrão. Pagou já resolve tudo”, afirmou (ouça aqui).  “A gente trabalha diretamente com o Detran. Para renovar [a CNH] você vai gastar R$ 200,44: exame médico, taxa e mais um cursinho que você não vai fazer nada, só vai disfarçar um pouquinho lá.” Em outros momento da conversa,  o homem acrescenta que resolve qualquer problema do motorista e pode inclusive 'montar' uma carteira de habilitação.

Regras

Na renovação da CNH, motoristas têm de se submeter a uma  prova sobre conhecimentos em primeiros socorros e direção defensiva. O candidato tem três opções:
1) Baixar arquivos pela Internet, estudar em casa e fazer a prova na sede do Detran, gratuitamente; 2) Fazer a prova eletrônica em uma entidade de ensino credenciada pelo Detran ao custo de  R$ 28; ou  3) Fazer um curso presencial de 15 horas em um CFC e depois fazer a prova (a lei prevê que nesse caso não pode haver reprovação).

Dribles

Uma clínica médica localizada na Zona Oeste de São Paulo faz a ponte entre os clientes e um CFC onde a aprovação é garantida. "É certeza que passa?", pergunta o repórter que se faz passar por cliente. "Passa sim, sem nenhum problema", responde a funcionária (ouça aqui).
Uma auto-escola localizada no Paraíso, Zona Sul, aplica a prova do Detran todos os dias e garante que em 48 horas o motorista estará com a carta nova na mão. "A prova custa R$ 38, o exame custa R$ 47 e a renovação, R$ 85", diz a atendente. Ela admite  que "tem um jeito de resolver tudo mais rápido", mas tenta saber quem indicou a escola.

Outra auto-escola localizada na Zona Oeste não dá o curso de 15 horas, mas garante que existe 90% de chance de o motorista passar na prova. "Sai por R$ 162. É o valor do exame médico e da renovação. Você vem na segunda-feira e na quinta-feira no máximo vai estar na sua mão. É bem rápido."

Divergências

A reportagem do G1 ligou para Centros de Formação de Condutores (CFCs) espalhados pela cidade. Muitos deles cobram mais do que os R$ 60 permitidos ou realizam o curso em menos de 15 horas, o que é ilegal, de acordo com o presidente do Sindicato das Auto Moto Escolas e CFCs.

Em um deles, na região central, é possível fazer o curso de 15 horas exigido pelo Detran em um único sábado e sair do estabelecimento com o certificado na mão. A funcionária afirma que o curso custa R$ 60 mais R$ 10 de material.

Na Zona Leste também é possível fazer o mesmo curso das 8h30 às 17h de um único sábado.  Consultado, o Detran informou que o curso dura 15 horas. Neste CFC, o curso custa R$ 70. “Em meia hora você faz e em dois minutos pega o certificado", garante a funcionária.

Feira

O presidente do Sindicato das Auto Moto Escolas e Centros de Formação de Condutores do Estado de São Paulo, José Guedes Pereira, diz que os "zangões abordam as pessoas, sempre perto de unidades do Poupatempo e depois entram em conluio com um CFC para praticar irregularidade".
O representante das empresas do setor  deixa claro que é difícil controlar os desvios.

"Irregularidade sempre tem alguém querendo cometer. Isso tem sido uma constante na nossa atividade. Tentamos perseverar pelos sérios”, disse Guedes.

De acordo com o sindicato dos CFCs, cabe ao Departamento Estadual de Trânsito (Detran) identificar e punir os donos de estabelecimentos envolvidos em irregularidades. Procurado pelo G1 sobre a ocorrência de irregularidades no processo de renovação da habilitação desde 21 de agosto, o Detran não se manifestou sobre o assunto.

Desvio

No Poupatempo Sé, clínicas e escritórios disputam cada visitante que deixa a estação do Metrô em direção à praça de serviços públicos.
O prédio do Poupatempo fica na margem esquerda da Praça Clóvis, mas um suposto atendente uniformizado com a palavra 'Informação' conduz o repórter para o lado oposto – um velho prédio na Rua das Flores, ali perto.

Quem segue o pretenso orientador encontrado na rua  é levado até clínicas de exame médico, despachantes e auto-escolas que atuam no local. O verdadeiro endereço do Poupatempo só é informado depois que o cliente comprou os serviços oferecidos no local.

Fonte: G1.globo

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